Questão utilizada na Prova do ENADE (2008)

Questão utilizada na Prova do ENADE (2008), extraída do artigo “O que é vida? In: Ciência Hoje, v. 32, nº 191, p. 16-23 (com adaptações), de Andrade & Silva, 2001.

A observação das formas atuais de vida demonstra que até mesmo o mais simples dos seres vivos com organização celular é um sistema complexo, no qual se destacam duas classes de moléculas: as proteínas e os ácidos nucléicos. É possível imaginar que, nos oceanos primitivos, existiam sistemas organizados de reações enzimáticas, do tipo coacervados. Mas como esses sistemas se perpetuariam e evoluiriam sem um código genético? Os ácidos nucléicos também poderiam ter surgido nas condições da Terra primitiva. Mas como formariam um sistema complexo e organizado sem interagir com o aparato proteico/enzimático? A total interdependência entre essas moléculas essenciais remete a uma das principais questões ligadas à origem da vida, que poderia ser comparada ao dilema do ovo e da galinha. Considerando que as hipóteses acerca da origem da vida na Terra mencionadas no texto acima não são as únicas, responda: o que surgiu primeiro, os ácidos nucléicos ou as proteínas? Escolha uma:

a. O DNA pode ter sido o precursor dos demais compostos, pois estoca e replica informação genética, é dotado de atividade catalítica e é facilmente degradado por hidrólise, o que facilita a reutilização de seus monômeros e, portanto, a colonização da Terra com polímeros primordiais de DNA.

b. A favor da hipótese de que as proteínas desempenharam papel central na origem da vida, incluem-se estudos como o que mostrou a possibilidade de que os aminoácidos tivessem se originado, sem a intervenção dos seres vivos, a partir de uma atmosfera constituída de gases como metano, nitrogênio e oxigênio e de vapor d’água.

c. Admitindo-se a possibilidade de a Terra primitiva conter nucleotídeos livres, o calor poderia ter sido a fonte de energia disponível para a formação de ligações covalentes entre eles, com a consequente formação de proteinóides, que, por sua vez, deram origem a microesferas, estruturas que poderiam ser precursoras das células primitivas.

d. Existe a possibilidade de o RNA ter sido o precursor das demais moléculas, visto que certas sequências de RNA, chamadas íntrons, são capazes de acelerar reações químicas e, além disso, mostraram capacidade de fazer cópias de si mesmas.

 

 

Questões de aprendizagem relacionadas ao filme “Quem foi que disse: sobre a vida e o viver”

Questões de aprendizagem Cena correspondente
1- Qual a idade estimada da vida na Terra? 7’ e  20’’
2- Explique por que a metáfora da árvore é mais adequada para explicar a evolução da vida na Terra do que a ideia de um transformismo das espécies. 7’ e 50”
3- A parte ficcional do filme foi construída em função de uma pergunta: O que é vida? Para além disso, qual é a outra questão fundamental que a ficção encerra? 8’ e 35”

 

4- Segundo Charbel El-Hani, o termo vida é “prenhe de significados”. Quais ideias/discursos/significados é possível identificar na fala das pessoas no ônibus quando elas respondem à questão: o que é vida? 28’ e 18”
5- Por quê o Dr. Martin Makler afirma que “somos poeira de estrelas”? 31’ e  45”
6- Qual a diferença entre conceitos classificatórios e comparativos? 33’ e 12”
7- Vírus e a Terra podem ser considerados seres vivos? Explique a sua resposta. 33’ e  50”
8- O que significa dizer que os seres vivos são operacionalmente fechados, contudo, termodinamicamente abertos? 37’ e  22”
9- Qual o problema de se definir vida como uma lista de predicados? Qual a solução para este problema? 39’
10- Respondam vocês mesmos a pergunta da Aline: “Haverá uma resposta definitiva para o problema do que é vida?” Por que você pensa assim? 46’ e  35”

Respostas para as referidas questões explicitadas no quadro acima:

Questão 1: A idade estimada da vida na Terra é de 3,8 bilhões de anos.

Questão 2: A ideia equivocada do transformismo – a transmutação de uma espécie em outra ao longo do tempo – está geralmente associada a um outro equivoco, a ideia de um sentido, o fim último do processo evolutivo: o aparecimento da espécie humana. De fato, o processo evolutivo não é linear, mas ramificado, e não existe finalismo nem o sentido de progresso e, portanto, não há espécies mais ou menos evoluídas. O processo evolutivo é lento e gradual, de sobrevivência diferencial dos indivíduos que tem alguma vantagem dentro de uma população. Se pudéssemos observar o processo evolutivo no tempo, a perspectiva seria de um grupo diverso se dividindo em dois grupos diversos e esses dois grupos, ainda diversos, se dividindo em mais dois e assim por diante. Destarte, o que melhor descreveria a evolução seria uma árvore. O surgimento de novos ramos (ramificação) seria o surgimento de novas espécies e a quebra de ramos seria a extinção.

Questão 3: A linguagem é fundamental para o surgimento da cultura e como mediadora do conhecimento.

Questão 4: Senso comum, religião, saber ensinado.

Questão 5: Porque todos os átomos pesados que participam da constituição dos seres vivos tiveram suas origens a partir dos átomos mais leves, hidrogênio e Hélio, em reações nucleares ocorridas nas estrelas.

Questão 6: Os conceitos classificatórios não distinguem ou valorizam as formas intermediárias, são conceitos do tipo “tudo ou nada”. Os conceitos comparativos distinguem e valorizam as formas intermediárias, ou seja, o “mais ou menos”.

Questão 7: Uma lista de predicados (características) não é uma explicação, porque ela não propõe um mecanismo gerativo que, posto a operar, produz a fenomenologia do vivo ou o próprio ser vivo. Para além disto, torna-se difícil estabelecer quais predicados são necessários e suficientes para abarcar toda da biodiversidade, presente e passada. A solução seria a proposição um mecanismo gerativo como, por exemplo, a organização autopoiética proposta por Humberto Maturana (1970/1980; 2002).

Questão 8: Um sistema operacionalmente fechado não permite instrução de fora para dentro. Ele é autônomo e, portanto, só obedece a uma lei que lhe é interior. Um sistema termodinamicamente aberto aceita trocas de matéria e energia com o meio. Assim, os sistemas vivos, enquanto sistemas autônomos, são operacionalmente fechados. No entanto, enquanto sistemas que trocam matéria e energia com o meio, eles são termodinamicamente abertos.

Questão 9: Seguindo o modelo da autopoiesis, os vírus não são seres vivos porque lhes faltam as dinâmicas moleculares autônomas – produção de moléculas constitutivas da produção de moléculas que se auto produzem e especificam uma fronteira. Quanto à Terra, seguindo o modelo da autopoiesis, ela também não é um sistema vivo porque lhe falta a dinâmica molecular autônoma. No entanto, a questão pode ser rediscutida em outro nível. Se o observador considerar a Terra, não como um organismo, mas como um superorganismo, constituído de sistemas vivos – os organismos – neste caso, poder-se-ia considerar a Terra como um sistema autopoiético de 3a. ordem, apoiando assim a Teoria de Gaia, proposta por James Lovelock e Lynn Margulis (1974). De outra maneira, poder-se-ia também utilizar de conceitos comparativos, como sugerido por Charbel el Hani (cena: 33’ e 10” do Filme 1), para afirmar que a Terra é “mais ou menos” viva.

Questão 10: Não,  porque  todo e qualquer enunciado da ciência é passível de ser refutado. Para além disto, os diferentes sistemas de conhecimento aceitam diferentes critérios de validação de suas explicações e, finalmente, porque as diferentes culturas produzem diferentes verdades.